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O Sistema

Capítulo 2: O Pedido

por @Karina Silva

O contrato chegou numa terça-feira, pelo canal de sempre, com a educação fria de quem está acostumado a ser obedecido.

Isis tinha passado os três dias anteriores caçando a origem das perguntas que o alerta flagrara, e encontrara coisa nenhuma. Quem quer que estivesse pagando para saber do Fantasma sabia se mover como o próprio Fantasma. Isso a incomodava mais do que qualquer ameaça aberta, porque uma ameaça ao menos vem de algum lugar, enquanto aquele silêncio custava dinheiro de gente grande.

Quando a mensagem nova pingou, ela leu com o dobro da atenção de sempre, procurando a costura entre uma coisa e outra.

Mapeamento completo. Comércios, valores, rotas de cobrança, nomes de quem organiza mutirão ou associação de moradores. Área em anexo. Prazo de dez dias. Pagamos o dobro da tabela.

Isis abriu o anexo esperando mais um pedaço qualquer do mapa da cidade, um daqueles territórios que ela conhecia só por coordenada e reputação. O arquivo carregou devagar, desenhando o contorno de um polígono sobre a imagem de satélite.

Ela reconheceu a padaria antes de reconhecer o resto. Depois o telhado da igreja, a quadra da escola, a rua estreita que subia torta até a caixa d'água. Por último, quase no centro do polígono, o ponto exato onde a mãe dela estendia roupa no quintal toda manhã.

O bairro. O dela.

Ficou um tempo parada, o cursor piscando sobre o botão de resposta. Do outro lado da tela, alguém queria comprar exatamente aquilo que ela vinha construindo em segredo havia meses. A diferença era o uso. No arquivo pessoal de Isis, cada nome e cada valor eram uma espécie de inventário da sufocação, um jeito de enxergar a engrenagem inteira. Na mão de quem estava pedindo, o mesmo mapa virava ferramenta de aperto, e lista com nome de quem organiza associação de moradores só costuma servir a um tipo de plano.

O de sempre teria sido simples. Aceitar, entregar, apagar os logs, seguir adiante. A neutralidade que ela vendia como marca dependia de um Fantasma sem bairro, sem mãe, sem dona Célia. Vir de lugar nenhum era parte do preço.

Isis fechou o anexo e foi lavar o prato acumulado na pia, um hábito que tinha quando precisava pensar com as mãos ocupadas. A água fria escorrendo pelos dedos ajudava a ordenar as perguntas na sequência certa. Quem estava comprando. Por que agora. E por que uma organização que já cobrava taxa naquelas ruas precisaria de um mapa que, em tese, já possuía.

A resposta da última pergunta veio antes de fechar a torneira, e era das ruins: dono de território conhece o próprio raio-x de cor, então uma encomenda daquele tamanho só podia vir de alguém se preparando para tomar posse.

Levou dois dias para confirmar. Não perguntando, claro. Perguntar era coisa de amador. Ela puxou o fio pelo dinheiro, como sempre fazia: a carteira que pagaria o serviço tinha recebido, semanas antes, três transferências fracionadas de uma conta ligada a uma empresa de segurança patrimonial da Zona Oeste. Papel timbrado, CNPJ ativo, site com foto de câmera e cachorro. Fachada clássica de milícia em fase de expansão.

O bairro dela sempre fora terra do tráfico, um comando pequeno, meio decadente, que cobrava pouco e aparecia menos. Estrutura frouxa o bastante para tentar qualquer um com apetite, e a empresa de segurança patrimonial queria entrar já sabendo onde ficava cada esquina que dava lucro.

Isis conhecia o roteiro do que viria depois, porque já tinha vendido mapa para esse tipo de operação em outros cantos da cidade. Primeiro caem os meninos do comando antigo, de preferência com a polícia aplaudindo. Depois sobem as taxas, chega o gato de internet obrigatório, o gás com preço tabelado, a van que não pode mais parar onde parava. Por fim somem os nomes da lista. Os que organizam mutirão. Os que reclamam alto.

Numa dessas listas, num futuro de poucos meses, estaria dona Célia, que reclamava alto fazia sessenta anos.

O prazo corria. Fantasma que atrasa entrega perde a aura de infalível, e quando o mercado começa a duvidar do mito, começa também a procurar a pessoa por trás dele, com nome, endereço e horário de dormir.

Restavam três caminhos, e ela os alinhou na cabeça com a mesma frieza com que estruturava um banco de dados.

Recusar. Possível, já tinha recusado trabalho antes. Mas recusa também é informação. Diria ao comprador que aquele território, por algum motivo, importava para o Fantasma. Seria a primeira pista sobre sua identidade que ela teria dado em três anos, e das grandes.

Aceitar e entregar o mapa verdadeiro. A opção profissional, que trocava a vida de gente com nome e rosto pelo preço de uma reputação intacta.

Ou aceitar e entregar outra coisa.

A terceira ideia chegou pequena, quase tímida, e foi crescendo enquanto Isis olhava para o polígono na tela. Ninguém confere um mapa do Fantasma. Três anos de informação limpa e precisa tinham construído algo de que nem ela tinha se dado conta até aquela noite: um monopólio sobre a verdade, e monopólio sobre a verdade significa, na prática, licença para mentir uma vez.

Um mapa levemente errado. Rotas de cobrança deslocadas duas ruas. Valores inflados o bastante para a conta da invasão não fechar. A associação de moradores registrada como desativada. E, no meio dos dados verdadeiros o suficiente para dar cheiro de real, meia dúzia de iscas: pontos que, se a empresa de segurança patrimonial visitasse, fariam barulho, chamariam atenção, acordariam imprensa e batalhão.

O plano tinha menos de proteção e mais de sabotagem: atrapalhar a compra sem que o comprador percebesse o golpe. Se funcionasse, a expansão atrasava um ano, talvez dois. Se falhasse, ninguém teria como rastrear a falha até ela, porque erro de informação, no mundo deles, sempre tem um culpado mais próximo e mais barato do que o fornecedor invisível.

Isis abriu o arquivo pessoal, o mapa que nunca vendera, e olhou para ele com outros olhos. Meses alimentando aquilo para entender o bairro, e agora ia usá-lo como material de uma mentira.

Começou a trabalhar. A versão adulterada precisava ser uma obra de arte, verdadeira em noventa por cento, podre exatamente nos dez por cento que decidiam tudo. Mentir bem, descobriu ela na terceira hora, dava dez vezes mais trabalho do que falar a verdade, porque cada dado falso obrigava a ajustar outros quatro ao redor para que ninguém tropeçasse na emenda.

O sol já vinha subindo quando ela terminou a primeira camada. Antes de dormir, releu a mensagem do contrato mais uma vez e digitou a resposta de sempre, três palavras, nenhuma a mais.

Aceito. Dez dias.

Enviou, apagou, desligou o monitor. No escuro do quarto, deitada de olhos abertos, sentiu uma coisa nova se acomodando no peito, ainda sem nome, em algum lugar entre o medo e a vertigem.

Durante três anos, o Fantasma tinha vendido o mapa da guerra sem nunca entrar nela.

Isso tinha acabado hoje. A guerra só ainda não sabia.

O celular acendeu no criado-mudo. Resposta do comprador, chegando rápido demais para quem devia estar dormindo àquela hora. Isis leu duas vezes, e na segunda o sono foi embora de vez.

O patrão gostou de trabalhar contigo. Depois dessa, tem serviço maior.

Patrão. Em três anos de mercado, ninguém do ramo tinha usado essa palavra com ela. Patrão era vocabulário de outro andar, de gente que assina papel e despacha em sala com ar-condicionado.

Ela levantou, religou o monitor e abriu a sentinela, por puro reflexo de quem confere a fechadura antes de dormir. O painel carregou o resumo dos últimos três dias, e o que apareceu ali apertou o peito dela mais do que qualquer mensagem.

As perguntas sobre o Fantasma tinham parado. Todas. No mesmo dia em que o contrato chegou.

Isis ficou olhando a tela, o cursor piscando sobre o gráfico vazio, fazendo a conta que não queria fazer. Perguntas param por dois motivos. Ou quem perguntava desistiu.

Ou quem perguntava encontrou a resposta.


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