A mentira precisava de chão. Foi essa a conclusão de Isis na terceira noite de trabalho, olhando para o mapa adulterado pela metade. Dados de tela envelheciam rápido: uma rota de cobrança podia ter mudado, um comércio podia ter fechado, e qualquer detalhe podre demais denunciaria a fraude para quem conhecesse o território de perto. Para mentir bem sobre um lugar, ela precisava pisar nele de novo.
Havia outros dois motivos, que ela preferia encarar de lado. Fazia quatro meses que não via a mãe. E, desde a noite do contrato, a sentinela seguia muda, sem uma pergunta nova sobre o Fantasma em canal nenhum. Se alguém já sabia a resposta, ficar trancada no apartamento previsível de sempre era o pior esconderijo possível.
Desceu do ônibus no ponto da igreja, no meio da tarde de um sábado abafado. O bairro tinha cheiro de sábado: carne na chapa em algum quintal, sabão de tanque, música alta vindo abafada de alguma rua mais adiante, anunciando festa antes da hora. Ela vinha de tênis gasto e mochila nas costas, indistinguível de qualquer menina voltando do estágio, e era exatamente essa a intenção. O Fantasma tinha três anos de vida. Isis, ali, tinha vinte e dois, e todo mundo conhecia a filha da Sônia.
A quadra da escola estava aberta. Do portão, ela avistou mesas de plástico enfileiradas, cartazes de cartolina, uma fila de gente segurando pasta e documento. No meio da movimentação, dirigindo o trânsito de cadeiras com um sorriso de quem nasceu para aquilo, estava Caio.
Ele a viu antes que ela decidisse se entrava.
— Não acredito.
Largou a pilha de papéis em cima da mesa e atravessou a quadra de braços abertos.
— A senhorita criou coragem de descer do asfalto.
— Eu moro a quarenta minutos daqui, Caio.
— Quarenta minutos que viraram quatro meses.
O abraço apertou mais do que ela esperava. Ele recuou, segurando os ombros dela, examinando.
— Tá magra. Tá dormindo?
— Tô trabalhando.
Isis desviou para os cartazes na parede da quadra. Mutirão de documentação. Aula de reforço às terças e quintas. Assembleia da associação de moradores, dia vinte e três, pauta: iluminação da subida e regularização das casas do morro.
Cada linha daqueles cartazes estava na lista que alguém tinha encomendado a ela. Nomes de quem organiza. Isis sentiu o peso do contrato dentro da mochila onde ele nem estava.
Caio acompanhou o olhar dela e baixou a voz, mesmo com a quadra barulhenta.
— A assembleia vai lotar. O pessoal anda assustado. Apareceu um povo aí oferecendo segurança pros comércios. Cartãozinho, uniforme, conversa mansa. Tu sabe como começa.
— Sei como termina.
— Então tá sabendo mais que muita gente aqui, que jura de pé junto que é proteção de verdade.
Ele chegou mais perto.
— Os meninos da boca sumiram da praça essa semana. Sumiram, Isis. Aquele povo não sai de férias.
Ela registrou a informação com o rosto parado de quem ouve fofoca de vizinho. Por dentro, o cronograma inteiro se reorganizou. A tal empresa de segurança já tinha começado sem esperar mapa nenhum; a encomenda servia à segunda fase. A primeira circulava pelas ruas de cartãozinho e uniforme.
Caio cutucou o ombro dela, mudando de tom.
— E você, hein, sumida desse jeito. A dona Sônia fala de você na fila do pão que nem quem reza. Minha filha trabalha com computador, minha filha vai comprar casa pra mim.
Ele sorriu, e o sorriso veio com um resto de coisa séria por baixo.
— Ninguém sabe direito o que você faz, sabia? Computador é resposta de mãe. Falta a sua.
— Segurança de sistemas. Auditoria. Coisa chata de explicar.
— Hm.
Caio a olhou por um segundo a mais do que a mentira comportava, e Isis sustentou, porque sustentar era o ofício dela. Ele deixou passar.
— Aparece na assembleia dia vinte e três. Falta gente que entenda dessas paradas de câmera, de internet. O pessoal quer botar câmera comunitária na subida e ninguém sabe nem por onde começar.
Câmera comunitária. Isis quase riu do tamanho da ironia, mas o que saiu foi uma pergunta que ela sequer tinha planejado fazer.
— Quem tá puxando essa ideia das câmeras?
— A Célia. Quem mais?
Caio riu.
— Sessenta anos gritando com todo mundo. Agora quer gritar com prova em vídeo.
A casa da mãe cheirava a feijão novo e amaciante, o cheiro exato dos últimos vinte anos. Sônia abriu a porta, olhou a filha da cabeça aos pés e proferiu o diagnóstico antes do beijo.
— Tá magra.
— O Caio já falou.
— Então tá todo mundo enxergando, só você que não.
Puxou Isis para dentro pelo braço, como se a filha tivesse doze anos.
— Senta. Tem comida pronta e vai comer agora. Essas coisas de aplicativo que você pede enganam a fome e ainda chamam isso de almoço.
Isis sentou. Havia uma paz específica em ser mandada, uma folga que ela já não encontrava em canto nenhum da vida. No mundo do Fantasma, todas as decisões pertenciam a ela, o tempo inteiro, sem exceção e sem descanso. Naquela cozinha, a única escolha disponível era repetir ou dispensar.
— A senhora tá precisando de alguma coisa? Dinheiro, remédio, alguma coisa da casa?
— Preciso que apareça.
Sônia sentou na cadeira em frente, descascando laranja sem pressa.
— E preciso saber quando vai me contar o que anda te comendo por dentro.
— Trabalho, mãe. Só isso.
— Isis.
A mãe pousou a faca.
— Eu te criei sozinha nessa casa. Eu sei a diferença entre cansaço de serviço e cansaço de segredo. Você tá com os dois.
O relógio da parede, um galo de plástico comprado na loja de um real, tiquetaqueou um tempo comprido. Isis olhou para o prato. Existia uma versão daquela conversa em que ela contava tudo. Durava três frases, e destruía a paz daquela cozinha para sempre. Mãe que sabe vira mãe que teme, e mãe que teme vira rastro. No mundo em que Isis tinha se metido, o amor funcionava como vetor de ataque.
— Quando esse projeto acabar, eu tiro férias. Venho passar um tempo. Aí a gente conversa.
Sônia a estudou com aqueles olhos que liam boletim escondido a dez metros de distância. Depois recolheu a casca da laranja e assentiu devagar, do jeito de quem aceita o acordo sem acreditar no prazo.
— Vou cobrar.
— Eu sei.
— E leva marmita quando for embora.
O mercadinho de dona Célia ficava no caminho do ponto, e Isis entrou para comprar um refrigerante que nem queria: precisava ver com os próprios olhos uma esquina que no mapa dela constava como ponto de cobrança. A sineta da porta anunciou sua entrada, e dona Célia levantou os olhos por cima dos óculos.
— Olha ela. A que conserta as coisas.
— Boa tarde, dona Célia.
— Boa nada.
A velha apontou o queixo para a rua.
— Tá vendo aquele carro branco ali na esquina? Terceira vez essa semana. Fica parado, ninguém desce. Na quinta desceu um de colete falando de segurança, plano de proteção pro comércio. Eu disse que meu plano de proteção é São Jorge e uma peixeira, nessa ordem.
Isis olhou pelo vidro. Sedan branco, película escura, motor ligado. Memorizou a placa num reflexo tão automático quanto respirar, e antes de soltar o ar já tinha entendido o que aquele carro confirmava: a primeira fase operava dentro do bairro havia tempo.
— A senhora falou isso pra ele? Da peixeira?
— Falei e repito.
Dona Célia cruzou os braços.
— Eu pago o que sempre paguei pra quem sempre cobrou, que ao menos é cria daqui e conhece minha filha de batismo. Agora esse povo de fora, de colete, com crachá de mentira? Na minha porta não entra.
O engano dela, pensou Isis com uma pontada fria, estava em achar que o freguês escolhia fornecedor. O modelo de negócio que vinha aí engolia qualquer concorrência, e a peixeira de dona Célia valia, contra aquilo, o mesmo que os cartazes de cartolina do Caio: coragem em material perecível.
A sineta tocou de novo às costas dela.
Robertinho entrou sem pressa, tênis limpo, e o ar do mercadinho mudou de densidade do jeito que sempre mudava. Cumprimentou dona Célia com um aceno de cabeça e deixou os olhos pararem em Isis um instante além do casual.
— A moça do computador. Sumida.
— Trabalhando fora.
— Fazem falta aqui uns talentos assim.
Ele pegou uma bala do pote sobre o balcão, sem pagar, num gesto pequeno de dono.
— Cê viu o movimento aí fora. Tempo fechando.
Desembrulhou a bala com calma.
— Quem é rápido escolhe cedo pra que lado corre. Depois que a chuva cai, todo mundo escolhe apressado, e escolha apressada sai cara.
— Eu só conserto roteador.
A frase saiu redonda, polida por anos de uso.
Robertinho sorriu de verdade dessa vez, jogou a bala na boca e saiu com a mesma calma com que entrara. Pelo vidro, Isis o viu passar pelo sedan branco sem olhar, sem acenar, sem alterar o passo em um milímetro sequer. E foi justamente essa indiferença perfeita demais que fez o estômago dela afundar.
Ninguém ignora tão bem assim um carro parado no próprio território. Aquele sedan já tinha deixado de ser estranho para Robertinho, o que significava que a cobrança antiga e o povo de colete costuravam a transição por baixo do pano, provavelmente havia semanas.
Encomendaram o mapa para uma fusão, e isso era pior do que qualquer invasão. Uma guerra ao menos tem dois lados se atrapalhando, tempo perdido, erro de cálculo. Uma fusão anda em cronograma, e o mapa dela era a página seguinte desse cronograma.
O ônibus veio dez minutos depois. Isis sentou do lado da janela, a marmita da mãe pesando na mochila, a placa do sedan repetindo na cabeça feito refrão, e fez o que fazia melhor: reduziu tudo a probabilidades. O mapa envenenado sairia em seis dias. A fusão levaria semanas para digerir a informação falsa. Dona Célia tinha, pela conta mais pessimista, um mês de folga antes de qualquer coisa acontecer com ela.
A conta estava perfeita e durou exatamente três quarteirões. Então o ônibus contornou a esquina do mercadinho e reduziu diante do quebra-molas.
Ela viu pela janela o sedan branco estacionado de frente para a porta de dona Célia, agora com as duas portas abertas. Não havia ninguém dentro do carro.
Pela vitrine, dava para ver dois homens de colete em pé diante do balcão, e a velha do outro lado, os braços cruzados, o queixo erguido daquele jeito que Isis conhecia desde criança.
Nenhum dado dela previa aquilo. Nenhum modelo, nenhuma projeção, nenhum cronograma. O bairro tinha decidido andar mais rápido que a planilha.
O ônibus voltou a acelerar. Isis olhou para a própria mão já esticada na cordinha do sinal, sem lembrar de ter mandado o braço subir.
Fazia três anos que o Fantasma existia para nunca aparecer em lugar nenhum.
Ela puxou a cordinha.